A neve já lá vai e agora os campos alentejanos apresentam uma beleza diferente: o colorido das várias plantas, flores e árvores.
Quem não conhece o homem da capa negra, entre Terrugem e Borba. Na tarde de domingo, 29 de Janeiro, a negrura da capa era mais evidente devido ao branco qeu se amontoou em volta.

Na minha aldeia nevou pouco, mas em Vila Boim, a seis quilómetros, a queda foi um pouco maior, tal como se vê na foto.
É caso para dizer: "Fui ver/ a neve caía/ há tanto tempo a não via/ e que saudades Deus meu" (será mais ou menos assim. Augusto Gil, Balada da Neve)
"Documentos dos Séculos XV, XVI e XVII permitem-nos saber que o nome primitivo desta freguesia era TARRUJA, que tem uma área de 72,7 Km² e conta com uma população de cerca de 1300 habitantes. Por outro lado, nas suas Memórias de Vila Viçosa, o Padre Espanca diz que o nome Terrugem provém do latim «THURINGIA». Em documentos antigos aparece o nome desta freguesia com as seguintes grafias: Taruja, Tarruja, Tarrugem, Terruge e Terrugem. Derivado dela é muito natural ser o apelido de Torrujo que aparece na região nos séculos passados.
Em apontamentos inéditos de Vitorino de Almada, pode ler-se: «Duma memória da família Macedo Soutomaior vemos que das Astúrias veio João Foreiro com quatro irmãos, no tempo de D. Afonso Henriques, não sendo ainda rei, os quais expulsaram os Mouros de S. Romão e Fatalão, termo de Vila Viçosa; e da Terrugem, termo de Elvas; de que eles e seus descendentes ficaram senhores». Os mais antigos registos paroquiais da Terrugem remontam a 1603. Em 1628 foi tornada freguesia e aldeia em 1777, ficando anexa à Câmara de Vila Boim.
Invocando Santo António, a sua igreja paroquial remonta ao Séc. XVIII, com o pórtico de mármore no qual se inserem um pequeno frontão e duas mísulas. Foi reconstruída no Séc. XVIII e ampliada como actualmente se encontra, tendo sido melhorada por iniciativa do Sr. Capitão Manuel Rodrigues Carpinteiro, durante o tempo da sua presidência da Câmara de Elvas, estando muito bem cuidada, com o seu portado em mármore, de verga direita, abóbada de berço, chão de mármore e torre sineira com três sinos. Como curiosidade, refira-se que no interior do templo existe um tapete de Arraiolos do Séc. XVIII e uma lanterna com pé de barrinha de ferro, batido e dourado.
Terra de gente laboriosa, a Terrugem é também uma freguesia de artesãos. Os trabalhos ali executados têm por base o vime, a cortiça e principalmente as peles. (...) é rico e variado o lote de especialidades gastronómicas que têm «escola» na freguesia: desde a sopa de tomate e a açorda até às azevias, filhozes e bolos fintos, passando pelo ensopado de borrego e pelos grãos com enchidos, a Terrugem é um «mundo» de pratos saborosos, que fazem as delícias de qualquer um. (...)
Com Santo António como padroeiro, a Terrugem tem as suas festas anuais em Agosto e o Natal e a Páscoa são outras épocas festivamente assinaladas nesta localidade. No Natal é frequente encontrarmos grupos de pessoas entoando pelas ruas da freguesia, os cânticos tradicionais de natal, acompanhados pelos originais sons da ronca, que é feita a partir de um cântaro ou pote de barro, com uma pele de bexiga de porco por cima, furada por uma cana. Na Páscoa, na Terrugem, celebra-se ainda um antigo ritual religioso, «as aleluias», que festejam e celebram a ressuscitação de Jesus Cristo. Quando bate a meia-noite do Sábado de Aleluias, tocam-se os chocalhos, percorrem-se as ruas em autêntica explosão de júbilo, num esforço que é compensado pela oferta de vários géneros, como bebidas e comida, a todos quantos participam na festa.
«Encostada» à Estrada Nacional N.º 4, a Terrugem é talvez a freguesia rural do concelho de Elvas com maior índice de desenvolvimento nestes últimos anos. Embora o sector agrícola desempenhe um papel fundamental para a economia da localidade, as indústrias de cortumes e hotelaria marcam também presença de destaque. Quem não ouviu já falar das «peles» da Terrugem e não viu as peças de vestuário ali fabricadas, com base nas peles de ovino e bovino?! Esta freguesia é hoje procurada, até pelos nossos vizinhos espanhóis, pela qualidade dos seus produtos, não sendo exagero afirmar que esta é uma das actividades principais, senão a principal, de suporte das gentes da Terrugem.
Se nos últimos tempos a construção de habitações se tem vindo a multiplicar em quantidade e variedade, devido também a um significativo número de profissionais da construção civil que ali residem, a verdade é que a casa-padrão continua a ser a de rés-do-chão, com lareira, antigamente em pedra e cal e hoje tijolo furado e cimento, mantendo-se fiel à tradicional traça tipicamente alentejana.
A população desta freguesia, já deu provas da sua vontade e capacidade de, em conjunto, construir as suas próprias condições. A ABAT Associação de Beneficência Amigos da Terrugem, é uma organização que se fundou com esse propósito, e conseguiu já edificar um centro de dia e lar para a terceira idade com o apoio domiciliário, um infantário e uma praça de touros. (...) Mas a população da Terrugem conta também com outras colectividades que se dedicam principalmente a desenvolver actividades desportivas e recreativas, elementos essenciais na vida desta gente, e que a par de outras, contribuem para o crescimento da freguesia".
O "Expresso" escreveu assim sobre o "Cagar da Vaca", baseando-se na notícia publicada pelo "Linhas de Elvas" a 11 de Agosto:
Roleta alentejana
"O povo da Terrugem, em Elvas, acaba de inventar uma nova modalidade de jogo para animar as festas. Chama-lhe «Cagar da vaca» e a regra é simples, mas requer paciência. O chão da praça de toiros é dividido em quadrícula numerada, como se fosse um tabuleiro de xadrez. E é sobre os números inscritos na quadrícula que incidem as apostas do povoléu nas bancadas. Depois, basta esperar que a vaca, largada na arena e de lacinho a preceito, escolha o vencedor, defecando num dos quadrados. Conta o jornal Linhas de Elvas que, desta vez, o relógio biológico do animal funcionou ao fim de uma hora. O prémio é a própria vaca."
in Expresso (13/08/2005)
Já estão aí as Festas da Terrugem 2005. Começaram na noite desta sexta-feira com pompa e circunstância, até porque havia o novo parque de feiras a inaugurar...
As festas este ano ficaram mais arrumadas - divididas entre a praça de touros (para touradas e garraiadas), o polidesportivo (com gastronomia), o parque de feiras (que aloja as barracas de comes e bebes, as rifas e o jogo do bicho), o mercado diário (com artesanato), o pavilhão multiusos (exposição empresarial) e o Pátio Alentejano (onde vai actuar o Quim Barreiros na terça-feira).
As festas começaram de maneira diferente. À noite, a comissão transportou - como que em procissão - o pendão de Santo António. Atrás seguia a Banda Filarmónica de Borba. Fez-se a inauguração do novo parque de feiras (que também servirá para o mercado semanal das quartas-feiras) e a abertura das exposições de automóveis, de artesanato e de actividades económicas. Depois veio a garraiada (houve que esperar cerca de meia hora para começar por falta de electricidade, mais um ano e o PT não aguentou ;-|). A noite foi com certeza muito longa no recinto dos bares...
Em tempo de Festas de Verão não se pode esquecer a Igreja, onde os terrugenses vão pedir (ou agradecer) os milagres ao Santo António (ou ao Santo da sua devoção). O espaço de culto oferece o recolhimento no meio da euforia que são as festas ao longo de cinco dias (pois é, este ano temos direito a um dia extra de festas... mas desse falo-vos noutra ocasião). A Igreja (se pudesse falar) contaria a vida da população ao longo de muitas décadas, a história e as estórias da aldeia. Tenho a certeza que descreveria a face das crianças que ali apreenderam as primeiras mensagens de Jesus Cristo na catequese e que contaria a euforia vivida pelas crianças e pelos jovens que fizeram a primeira comunhão ou o crisma. A Igreja relataria certamente a alegria e a emoção dos casais que ali se comprometeram a "amar-se e a respeitar-se" para toda a vida e recordaria a esperança dos pais que ali baptizaram os seus bebés... Mas a Igreja Paroquial de Santo António também lembraria, com tristeza, todas as vidas a quem viu dar o último adeus; o choro, as lágrimas de quem vê um ente querido partir. E evidenciaria ainda a fé que leva os terrugenses à missa de domingo, às festividades de Natal, de Páscoa, às Aleluias, ou às celebrações de Maio, mês de Maria.
Do tempo de Festas, a Igreja iria lembrar a azáfama antes das procissões. "Quem leva este Santo?" "Faltam pessoas para o Santo António" - o mais pesado segundo dizem. "E a Senhora da Conceição, e o S. João (este transportei-o eu, em tempos), e os pendões?" À noite a Igreja recordaria a entrega e recolhimento de quem ali se desloca. Não há terrugense que ali não vá dar a esmola a Santo António, à Senhora da Conceição, à Senhora de Fátima ou que compre as estampas de santos, ou que simplesmente vá rezar. Deste tempo eufórico a Igreja resumiria os sons que costuma ouvir lá fora: o arraial com a banda a tocar, as rifas, os jogos tradicionais, o som de rua, as vozes alegres, os encontros ocasiosnais, as conversas mais privadas...
Enfim... É tempo de festa. Vamos aproveitá-la ao máximo. Já na adolescência, com os meus amigos, costumavamos dizer: "É Fêta, é Fêta!".

